27 de novembro de 2010

#55

-Como é que estás?
Um bocado desnorteada, mas cá me arranjo.Ok, tenho um problema: devia ter quatro olhos e quatro inteligências; jeito para alguma coisa que não fosse coisa nenhuma; vontade de ser mais qualquer coisa do que aquilo que sou; mas como disse, cá me arranjo.
Descosem-se umas virtudes ali e fazemos dois ou três remendos por cima. O ouro que uso, não é defeito. É feitio. E se misturo o ouro com a prata, com a roupa, com o cabelo e alguma pele é porque quero. Porque me esqueço que não é de bom gosto misturar ganga com ganga, mas eu faço-o à mesma, que não é de gente normal usar meias brancas por fora das calças. Repito: não é de gente normal, mas quem o faz que o faça por gosto e não porque sabe bem ter olhos postos em nós. 
 Falando em olhos, não têm por aí outros que me arranjem? É que estes que me deram têm tendência para piorar tudo, triplicar os problemas e chorar muito pelas pessoas. Se tiverem, podem ser azuis ou melhor, de uma cor fora do normal, porque para normal já me basta o facto de eu ter mãos e pés como toda a gente.
Quero ter coragem de ter o cabelo curto porque não quero apanhar aqueles tiques de puxar o cabelo comprido para trás e enrolá-lo e desenrolá-lo, fazer-lhes jeitos com a mão ou outra série de coisas que vejo que se faz a um cabelo comprido.
-Porque é que não o cortas como um menino? Tu com esse jeito, mais pareces um rapaz, juntas o útil ao agradável e transformas-te de vez.
-O problema é que no fundo, eu gosto muito de ser mulher.
-Que novidade, que coisa boa de se dizer! Era o que cá faltava, outra mulher que adora sê-lo.
-Olha, o que há pouco é pessoas que gostam do que são e nisso eu tenho culpa, gosto disso porque não tenho outro remédio; gosto disso porque apesar de tudo me divirto assim, sou o meu recreio e o meu baloiço. Porque é que vocês não vêm brincar comigo?