Hoje morri. Sinceramente, pensei que fosse pior. Custou-me tanto ou menos do que estas palavras.
Custou-me sim, olhar para as pessoas de quem gosto; as pessoas que simpatizo; as pessoas que queria conhecer melhor e pensar que nunca mais as veria. Nem as cheirava ou tocava.
Enquanto morri, pensei se depois de tudo iria ter a oportunidade de sentir alguma coisa?Ou pelo menos ter qualquer sensação?
A minha consciência respondeu-me que seria tal e qual um banho sem espuma. Que não iria ter espaço para recordações nem nada que se pareça.
Mas aposto aqui e agora, sem receios. Aliás, aposto até uma perna (agora que estou morta de nada me serve.) que a minha consciência só me disse isto para que eu ficasse mais calma. Para me matar o medo de morrer antes do tempo.
Não foi uma morte planeada, juro que não.
Mas certifiquei-me antes de morrer, que seria aquela a altura certa. Se quando morresse, aquelas pessoas que lá em cima vos falei iriam também sentir a minha falta. Como eu senti a deles.
Quando lhes falei na minha suposta morte, todos me ignoraram. Chamaram-me nomes. Alguns feios até. Disseram que eu tinha a vida toda pela frente. Pois tinha. Mas também tinha a morte. Mas ninguém se lembrou disso! Porquê?
Que raio tem esta pequena palavra, que tem letras que são comuns a todas as outras.
É que dizem sempre que ela soa mal. Não acho bonito.
Passarei então a chamar a todos os vivos que sinto falta, de Mortos.
Porque ao fim ao acabo, é assim que eles também estão.
Desculpem se esta vos irritou.
Desculpem se esta vos irritou.
E agora que estão aqui, já vos consigo cheirar. Sentir-vos perto.
Sou como o ar, toco-vos e vocês nem sequer sentem.
E finalmente ouço o Silêncio. E sinceramente, até vos prefiro assim. Calados.
Acho que vou gostar disto por aqui. Já me sinto feliz.
A quem ainda pensa que está vivo, não tentem matar a Srª Morte.