23 de maio de 2010

#30

Era uma vez um Senhor que morava numa aldeia que ficava muito longe de qualquer zona comercial.
As pessoas tinham de andar muitos quilómetros para poderem comprar o que quer que fosse.
Esse Senhor, tinha o sonho de ter um armazém com algumas ferramentas. Mesmo sabendo que podia não ser um bom negócio.
Numa noite, em que se fazia sentir uma temperatura muito alta lá fora, e ainda mais dentro de sua casa, ele decidiu ir passear.
Num caminho trilhado entre pedras e ervas daninhas, ele encontrou um Homem.
Estava caído no chão, com sangue a colorir a areia daquele trilho que agora já não era mais bonito, com uma garrafa vazia perto do seu corpo manchado de dor.
O Senhor agarrou no Homem, levou-o com todo o cuidado para sua casa.
Deu-lhe quarto, lavou-o, deu-lhe cama, tratou as suas feridas com água oxigenada, arranjou madeira que utilizou como talas para a sua perna e braço direito. O  Homem ali ficou, inconsciente, adormecido na sua vida miserável, durante meses.
O Senhor cuidou sempre dele. Alimentava a sua vida, cada dia que passava. Mais e mais.
Passados longos meses, o Homem acordou. Analisou onde estava, que roupas eram aquelas que o seu corpo mostrava, que cheiro era aquele que se fazia sentir naquela casa que lhe era estranha, e que achava feia.
Até que o Senhor apareceu na porta daquele quarto, olhou durante segundos esperando que o outro tomasse a iniciativa. Esperando conhecer a voz do Homem que tratara como se fosse o filho que nunca tinha tido, apesar de saber apenas aquilo que na aldeia se murmurava, que aquele Homem era um "bebâdo", um "preguiçoso", um "desmazelado", um "alguém sem amor à vida". Quem quereria tratar um Homem assim, como se fosse um filho? Que desejo era esse?
Ele finalmente falou. Perguntou onde estava, e porque é que tinha ido lá parar.
O Senhor respondeu:
-Pensei que tivesses uma voz mais rouca. No entanto, anda daí. Preciso de ti ali fora... As perguntas fazes noutro dia que hoje não tenho respostas.
O Homem foi, fez o caminho do corredor à porta, a olhar para o chão, a pensar em quem era e o que poderia ter acontecido para ele estar ali.
Lá fora, ele perguntou, consciente:
-Eu sou um bêbado desgraçado, não sou?
-Já te disse que hoje não tenho respostas. E a essa... - fitou-o nos olhos - sabes que não me cabe a mim responder.
-Eu sei que o sou, eu vim para aqui porque... - não terminou -
-Vieste para aqui, porque um dia erraste pela tua vida inteira. Se hoje criares as respostas certas a todas essas perguntas que tens dentro de ti, saberás que o que foste, não é o que terás de ser a partir daqui. E não sejas fraco ao ponto de não querer mudar.
O Homem ficou pensativo, e o Senhor voltou a interromper:
-Preciso que me vás comprar ferramentas, quero ter um armazém de ferramentas e tive este tempo todo à tua espera.
-Hoje não posso, preciso de respostas.
-... Ok, amanhã não podes fugir outra vez.
No dia seguinte:
-António, hoje tens de ir comprar as ferramentas...
-Bom dia. O meu nome é Ricardo, não António. Hoje quero sentar-me no quintal, e obter mais respostas...
-Não me interessa António. Hoje vais lá.
-Ok, hoje eu vou.
Era noite e o Ricardo chegou.
-Onde estão as minhas ferramentas, António?
-Perdi-me pelo caminho, por causa do sol. Pareceu-me perfeito para as minhas respostas.
E vários dias passaram, com mais e mais desculpas para não ter ido buscar as ferramentas. Foram meses.
Numa noite, Ricardo não conseguia dormir e resolveu ir ter com os seus velhos amigos ao café, fechou a porta à chave e saiu pela janela, deixando no seu parapeito, perto das cortinas uma vela acesa para que o Senhor não notasse a sua falta.
No café, bebeu um copo, e mais um, e mais um, e mais três e depois mais uns. Voltou bêbado para casa, e viu a casa que tinha sido o seu lar nos ultimos meses, queimada, rodeada de polícias e bombeiros e vizinhos curiosos e chorosos. Foi vaiado pelos vizinhos do Senhor. A casa estava em poeiras, a polícia dizia que só tinham restado alguns ossos chamuscados..
O Ricardo, assistia e só chorava de dor, de perda, da sua futilidade, de tudo o que não fez...

Na campa do Senhor, ele escreveu "Eu vou conseguir, por si! António".
Passaram-se apenas dois meses e o armazém que o António abriu na aldeia, deixava os vizinhos sorridentes e por um lado, espantados...mas orgulhosos.
Quando se passaram mais 2 meses, o Senhor apareceu no armazém, disfarçado, sempre com os olhos fixos no chão.
- Precisa de ajuda? - intrometeu-se o António
-Já não... Preciso de te agradecer. - respondeu, olhando para o fundo da sua alma como nunca tinha feito antes, como se quisesse exorcizar algo que já não conseguia ver -
Especulado, o António não se mexeu.
O Senhor deu-lhe um abraço forte, o primeiro de sempre e disse, a rir:
-Engraçado a polícia confundir ossos humanos com ossos de porco...